Marés

Tem dias que o TDAH me irrita profundamente

Garrafas ao Mar

Uma tarde comum em casa — louça, roupas, uma echarpe esquecida em cima da cama — e a aceitação de que talvez a casa nunca fique em ordem, mas talvez a vida sim.

Cheguei em casa depois do trabalho.

Preparei o almoço. Na verdade, só fiz o arroz, porque o restante já estava pronto. Os meninos resolveram não almoçar, mas eu estava precisando de uma refeição de verdade.

Enquanto o arroz cozinhava, lavei a louça.

Depois de almoçar, lavei a louça outra vez.

Aliás, continuo convencida de que existe alguma explicação sobrenatural para a quantidade de copos que aparecem na pia. Às vezes me pergunto se somos apenas nós três morando aqui ou se há visitantes secretos que invadem a casa durante a madrugada, comem escondido e deixam todos os copos sujos antes de ir embora.

Até aí, tudo dentro da normalidade.

Casa, almoço, pia. Não necessariamente nessa ordem.

O plano para a tarde era outro.

Eu queria finalmente organizar o escritório.

Há uma cama ali que um dia foi destinada aos hóspedes. Acho engraçado pensar nisso, porque os hóspedes desapareceram quando meus filhos deixaram a adolescência. Naquela época sempre havia algum amigo dormindo aqui.

Hoje a cama virou uma espécie de estacionamento de decisões adiadas.

As roupas para doar.

As roupas para levar à costureira.

O edredom.

Os cobertores que esperam, há semanas, que eu finalmente os leve à lavanderia.

A desorganização me consome porque ela mantém várias pequenas pendências abertas na minha cabeça. Curiosamente, elas costumam aparecer justamente à noite, quando já não há nada que eu possa fazer.

Ao mesmo tempo, existe outro lado da minha vida.

Os livros que quero ler.

Os artigos que quero escrever.

As ideias para o site.

Os projetos que continuam surgindo um atrás do outro.

É como viver puxada por duas forças diferentes.

De um lado, a casa pedindo manutenção.

Do outro, uma mente que não para de encontrar assuntos novos, conexões inesperadas e perguntas interessantes.

Saio do escritório para buscar um copo d'água.

Quando percebo, estou secando a louça.

Guardando algumas coisas.

Conferindo a geladeira para ver se ainda existe aquele restinho de feijão que eu tinha jurado que comeria à noite.

Sim, o feijão ainda estava lá.

Uma maçã fora do lugar.

Fecho a geladeira rapidamente e tento voltar para o escritório antes que apareça mais alguma tarefa no caminho.

Mas antes passo pelo quarto.

Foi aí que percebi uma echarpe em cima da cama.

Eu tinha guardado a bolsa.

Guardei a bota.

Tinha certeza de que havia organizado tudo quando cheguei.

Mas a echarpe ficou.

E foi nesse instante que uma ideia me atravessou.

Talvez seja sempre assim.

Talvez eu nunca tenha aquela casa impecável que imaginei durante tantos anos.

Não porque eu não me importe.

Mas porque minha atenção simplesmente funciona de outro jeito.

Meu quarto costuma ficar organizado porque eu cuido dele com intenção.

Agora, esperar que todos os cômodos permaneçam sempre perfeitos talvez seja exigir de mim algo que custa muito mais do que eu gostaria de admitir.

Talvez a segunda metade da vida seja justamente o momento de fazer as pazes com isso.

Aceitar que sempre haverá uma echarpe esquecida.

Uma caneca fora do lugar.

Uma gaveta entreaberta.

Uma roupa esperando para ser guardada.

Não por descuido.

Mas porque, enquanto minhas mãos estavam fazendo uma coisa, minha cabeça já estava explorando outra.

Em alguns dias, tudo estará em ordem.

Em outros, não.

Especialmente quando eu estiver completamente envolvida por uma ideia nova, um livro fascinante ou um texto que insiste em nascer.

E esse lado também é o TDAH.

O lado curioso.

O lado apaixonado.

O lado que esquece até de comer quando encontra uma pergunta interessante.

E, quer saber?

Se eu tiver que escolher entre uma casa levemente desorganizada e perder essa capacidade de me encantar pelo conhecimento, pela escrita e pelas ideias...

Acho que escolho conviver com algumas echarpes esquecidas.

Já li incontáveis listas com "23 estratégias para organizar a casa quando você tem TDAH".

Testei muitas delas.

Algumas ajudam.

Outras funcionam por um tempo.

Depois deixam de funcionar.

E tudo bem.

Talvez viver com TDAH não seja encontrar o sistema perfeito.

Talvez seja aprender a recomeçar sem transformar cada recomeço em fracasso.

A casa nunca estará completamente em ordem.

Mas talvez a vida esteja.

E, para mim, isso já é suficiente.

Scheilla Soares · Escutas e Travessias. Para citar, mencione a autora e o projeto.