
Marés
O erro que cometemos ao interpretar a atenção no TDAH
Uma lembrança da juventude, revisitada à luz da perspectiva neuroafirmativa, mostra como alguns comportamentos que parecem distração podem, na verdade, ser estratégias de autorregulação.
Durante muitos anos, acreditei que lia escondido debaixo da carteira porque as aulas eram monótonas.
Era verdade. Mas não era toda a verdade.
Eu cursava o magistério na década de 1980. Três vezes por semana, estudava de manhã e tarde. As aulas eram longas, muito teóricas e pouco desafiadoras para a curiosidade que eu tinha na época. Eu levava romances baratos comprados em sebos e lia escondido debaixo da carteira.
Os professores percebiam que eu estava de cabeça baixa e, de vez em quando, faziam perguntas diretamente para mim, certos de que eu não saberia responder.
Eu respondia.
Na época, ninguém entendia isso. Nem eu.
Hoje, olhando para trás a partir de uma compreensão neuroafirmativa do TDAH, essa lembrança ganhou outro significado.
Eu não lia apesar da aula.
Eu lia para conseguir permanecer nela.
Essa talvez seja uma das diferenças mais difíceis de compreender quando pensamos em neurodivergência.
Para muitas pessoas neurotípicas, fazer duas coisas ao mesmo tempo significa dividir a atenção. A segunda atividade funciona como distração.
No entanto, para algumas pessoas com TDAH, uma segunda atividade pode funcionar exatamente ao contrário: ela regula o nível de estimulação que o cérebro precisa para sustentar a atenção.
Não é uma fuga da tarefa.
É uma condição para conseguir realizá-la. Embora isso não significa que qualquer estímulo ajude qualquer pessoa com TDAH. Cada cérebro encontra formas próprias de autorregulação, e compreender essas diferenças é parte de uma prática verdadeiramente neuroafirmativa.
Anos depois, atendi uma adolescente que estudava em uma escola extremamente exigente. Ela chegava em casa exausta e só conseguia estudar ouvindo música. A família insistia que isso era impossível, que ninguém aprende ouvindo música. Ela mesma escondia essa necessidade.
Na época, sem conhecer os conceitos que conheço hoje, inventamos uma solução. Ela colocava um único fone de ouvido e escondia o fio sob o cabelo comprido.
Hoje percebo que ela fazia exatamente o que eu fazia muitos anos antes.
Eu escondia um livro.
Ela escondia um fone.
Nenhum de nós estava tentando escapar do estudo.
Estávamos tentando encontrar as condições para que ele fosse possível.
Talvez este seja um convite importante para quem convive com pessoas neurodivergentes.
Quando vemos uma criança rabiscando durante a aula, balançando a perna, manipulando um objeto, desenhando ou buscando alguma outra forma de estimulação, nossa primeira interpretação costuma ser: "Ela está distraída."
Talvez a pergunta mais interessante seja outra:
Para que serve esse comportamento?
Na Psicologia, aprendi com um professor que nem sempre a pergunta mais importante é "por quê?". Muitas vezes, a pergunta mais fértil é "para quê?".
O "por quê?" busca uma origem.
O "para quê?" procura uma função.
E compreender a função de um comportamento muda completamente a maneira como nos relacionamos com ele.
Na perspectiva neuroafirmativa, essa mudança de olhar é essencial.
Nem todo comportamento que parece inadequado é um problema a ser eliminado.
Alguns são soluções que a própria pessoa encontrou para regular seu sistema nervoso.
Se retiramos a estratégia sem compreender a necessidade que ela atende, muitas vezes retiramos também a possibilidade de aprender, de permanecer ou de participar.
Porque, muitas vezes, o caminho não será o mesmo esperado por um cérebro neurotípico.
E isso não significa que esteja errado.
Significa apenas que é um caminho neurodivergente.
Scheilla Soares · Escutas e Travessias. Para citar, mencione a autora e o projeto.
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