Sobre Scheilla Soares

Psicóloga, neuropsicóloga e mestre em Educação

Scheilla Soares - Psicóloga e Neuropsicóloga

Fui a menina das árvores — aquela que aprendeu a ler sozinha, achava a escola devagar, virou a CDF da turma. A história inteira dessa infância está contada em O Costão.

Nunca deixei de ser essa menina. E durante muito tempo não entendi por que não cabia — nos grupos acadêmicos, nas correntes da psicologia, nos modelos da educação. Brilhava intelectualmente e tropeçava nas relações. Direta demais. Intensa demais. Estranha demais.

O TDAH eu já sabia. Tinha nome para isso há anos. O autismo foi mais difícil — não de entender, mas de assumir. Quando finalmente deixei de falar em "traços" e me perguntei "e se tudo isso tiver a ver com autismo?", algo se reorganizou por dentro. Beirando os 60 anos, estou saindo do armário neurotípico. Com orgulho.

Essa compreensão não veio só da teoria. Veio de ser mãe atípica de três filhos neurodivergentes — de viver, 24 horas por dia, o que significa criar pessoas que o mundo insiste em tentar consertar. De aprender na pele que não existe uma fórmula para o TDAH, uma estratégia para o autismo, um caminho que sirva para todos. Existe o que funciona para aquela pessoa, com aquele funcionamento, naquele momento.

Sou psicóloga, neuropsicóloga e mestre em Educação. Mas o que me fez quem sou não está no currículo. Está nas árvores do quintal, nas madrugadas de mãe, nos livros lidos debaixo da carteira, em décadas sendo minha própria cobaia e testemunha.

Em algum momento, o corpo me obrigou a parar. Houve um colapso que me afastou do trabalho — e me fez olhar de frente, pela primeira vez na vida, para a possibilidade real de uma aposentadoria por invalidez. As demandas da maternidade atípica não cessaram nesse intervalo. Foi entre a fragilidade e a lucidez, com tempo finalmente parado para olhar, que entendi que não podia mais adiar o essencial: transformar em linguagem tudo o que tinha vivido e aprendido.

Durante o tempo da recuperação, encontrei na escrita de profissionais neurodivergentes — Devon Price, Jenara Nerenberg, Steph Jones — a linguagem que faltava. Não para descobrir quem eu era. Para nomear o que eu já vivia. E para enxergar o abismo entre o que se discute lá fora e o que a clínica brasileira ainda precisa receber: traduzido, contextualizado, devolvido ao cuidado.

Conheci Feuerstein pessoalmente. Quando lhe perguntaram sobre o objetivo do seu trabalho, ele respondeu:

Para que eles transcendam a nossa própria existência.

Reuven Feuerstein — dito pessoalmente à Scheilla Soares

Foi assim que entendi o que precisava fazer. O que um dia foi dor, hoje é linguagem.

Aqui estão meus escritos, minhas ideias, as teorias que fui construindo, tudo que aprendi e ainda estou aprendendo. Não para fazer sucesso. Para que seja útil a alguém, em algum momento, de alguma forma.

Quem chega pode seguir as travessias que existem aqui — e criar as suas também.

O Escutas e Travessias é o lugar que eu queria ter encontrado a vida inteira. Não encontrei — então o construí.

Scheilla Soares

Uso o feminino neste site porque a maioria das pessoas com quem trabalho são mulheres — em atendimentos individuais, em cursos e em grupos. Não é exclusão — é uma posição. O Escutas e Travessias é neuroafirmativo e acolhe qualquer identidade de gênero.

Scheilla Soares — psicóloga e neuropsicóloga CRP 12/01849
Escutas e Travessias — Psicologia Neuroafirmativa