Marés

A culpa de não conseguir escrever uma ata

Garrafas ao Mar

Sempre escrevi com facilidade. Mas atas de reunião e relatórios administrativos sempre me derrotavam. Durante anos, tentei entender isso fazendo a pergunta errada.

Durante muitos anos existiu uma contradição que eu não conseguia explicar.

Sempre escrevi com facilidade.

Na graduação, nunca tive dificuldade para escrever trabalhos, artigos ou ensaios. Pelo contrário. Era comum que colegas comentassem essa facilidade. Lembro de uma vez em que, depois de um encontro do grupo de estudos, alguém lembrou que ainda faltava escrever um texto. Eu disse, tranquilamente, que faria depois. Um colega respondeu:

"Tranquilo para você, que senta e escreve quase mediunicamente."

Era assim mesmo.

Escrever nunca foi um problema.

Ou pelo menos era isso que eu acreditava.

Porque existia um tipo de escrita que sempre me derrotava.

Atas de reunião.

Relatórios administrativos.

Registros burocráticos.

Esses textos atrasavam, ficavam acumulados e me causavam uma culpa enorme.

E isso nunca fazia sentido para mim.

Se eu conseguia escrever um artigo inteiro, por que não conseguia escrever uma simples ata?

A pergunta errada

Durante muito tempo tentei resolver esse problema pensando que ele tinha relação com a minha capacidade de escrever.

Eu me perguntava:

"Por que consigo fazer uma tarefa muito mais complexa e fracasso justamente na mais simples?"

Mas essa pergunta nunca levava a lugar nenhum.

Porque eu estava tentando resolver o problema errado.

O problema nunca foi a escrita.

Quando encontrei outra explicação

Foi estudando funções executivas, TDAH em adultos e perspectivas neuroafirmativas que essa experiência começou a fazer sentido.

Escrever um ensaio e escrever uma ata não mobilizam exatamente as mesmas habilidades.

O primeiro depende muito de linguagem, conhecimento, criatividade e raciocínio.

O segundo depende principalmente de iniciar uma tarefa, sustentar a atenção numa atividade pouco estimulante, finalizar e concluir aquilo que precisa ser entregue.

Ou seja: depende muito mais de funções executivas.

Foi aí que a culpa começou a diminuir.

O que William Dodson acrescentou

Mais recentemente conheci a proposta de William Dodson sobre o sistema nervoso regulado por interesses.

Foi uma das explicações que mais dialogaram com a minha experiência.

Dodson propõe que cérebros neurotípicos costumam responder melhor a demandas externas, responsabilidades e consequências.

Já pessoas com TDAH funcionam muito mais a partir do interesse, do desafio e da novidade.

Isso explica algo que escuto há anos das famílias.

"Como ele consegue ficar horas concentrado no videogame?"

Porque o cérebro não está respondendo ao dever.

Está respondendo ao interesse.

Quando tudo começou a fazer sentido

Percebi então que escrever nunca tinha sido o problema.

O problema era escrever textos que, para mim, tinham pouquíssimo significado.

Uma ata de reunião, por exemplo, sempre me pareceu um formato excessivamente rígido.

Tenho a sensação de que a mesma informação poderia ser registrada em dois ou três parágrafos.

Mas existe uma forma.

Quase como uma forma de bolo.

E é justamente essa estrutura rígida que parece travar meu funcionamento.

Hackear o cérebro

Uma das ideias que mais gostei em Dodson é que ele não para na explicação.

Ele propõe estratégias.

Ele fala em "hackear" o cérebro.

Mudar o ambiente. Introduzir novidade. Dividir tarefas. Criar desafios. Criar recompensas.

Quando li isso lembrei imediatamente de uma situação da graduação.

Eu precisava fazer um trabalho para um professor com quem estava profundamente irritada. A dificuldade não era intelectual. Era emocional. Eu simplesmente não conseguia começar.

Então fiz um acordo comigo mesma.

Se terminasse aquele trabalho, compraria uma saia que queria muito.

Terminei.

Comprei a saia.

Na época achei que era apenas uma estratégia pessoal.

Hoje percebo que, intuitivamente, eu já estava criando uma recompensa externa para tornar possível iniciar aquela tarefa.

Talvez essa seja a melhor parte

Para mim, essa é a parte mais bonita de compreender a neurodiversidade.

Não é descobrir que tudo tem uma explicação.

É deixar de transformar toda dificuldade em um julgamento moral.

Quando entendemos o funcionamento, deixamos de perguntar: "Por que eu sou assim?"

E começamos a perguntar: "Como posso tornar isso mais fácil?"

Essa mudança parece pequena.

Mas muda completamente a relação que estabelecemos conosco.

E talvez seja justamente isso que muitas vezes falta nas escolas.

Ainda ouvimos frases como "Você precisa prestar mais atenção."

Como se repetir essa frase várias vezes pudesse alterar o funcionamento de um cérebro com TDAH.

Eu costumo brincar que essa é a parte das professoras que ainda acredita em varinha de condão.

Compreender o funcionamento não elimina as dificuldades.

Mas permite que a gente deixe de fazer sermões morais para começar a construir estratégias.

Scheilla Soares · Escutas e Travessias. Para citar, mencione a autora e o projeto.