Espelho-d'Água

📍 Praia de Bom Abrigo, Florianópolis
Autismo em adultos
Talvez você tenha passado anos inteira tentando entender por que o social custa tanto — enquanto parecia natural para todo mundo ao redor.
Talvez você seja brilhante em muitas coisas e ainda assim se sinta sempre um passo fora do ritmo.
Talvez você já suspeite — ou já saiba — e ainda não tenha encontrado um lugar que entenda o que significa descobrir isso na vida adulta.
O que há de estranho em você não é erro — é linguagem.

Perdoai.Mas eu preciso ser Outros.Eu penso a renovação do homemusando borboletas.
— Manoel de BarrosMemórias Inventadas
Nas palavras sublinhadas ao longo do texto, você encontra leituras complementares escritas pela Scheilla.
"Nem todo labirinto é prisão — alguns são apenas formas diferentes de pensar."
A não nasceu como pauta de inclusão — nasceu como crítica. A ideia surgiu no final dos anos 1990 da recusa de pessoas que não queriam ser lidas como doentes a serem tratados, como desvios a serem corrigidos. A proposta era outra: assim como existe biodiversidade, existe diversidade neurológica. Não há um cérebro correto. O problema não está nas pessoas que funcionam diferente — está nos regimes de leitura que transformam uma forma particular de ser humano em padrão universal de saúde, de comunicação, de valor.
Se você chegou até aqui, provavelmente já fez essa pergunta pelo menos uma vez — e talvez tenha ficado em silêncio com ela por muito tempo.
O que une as pessoas que chegam ao Espelho-d'Água não é um diagnóstico. É uma experiência: a de ter crescido sentindo que havia algo diferente — no jeito de processar, de sentir, de se relacionar — sem ter nome para isso. Ou com um nome que não explicava tudo.
Autismo, TDAH, perfil misto — esses caminhos têm algo em comum: foram construídos, durante décadas, a partir de descrições que não incluíam mulheres, não incluíam funcionamento aparentemente exitoso, não incluíam quem aprendeu a mascarar tão bem que nem os profissionais perceberam.
A pluralidade desse campo é muito maior do que qualquer manual consegue abarcar.
Quando alguém fala em espectro, é comum imaginar uma linha — do "leve" ao "grave", do "quase normal" ao "muito diferente". Mas espectro não é uma linha. É mais parecido com uma roda de cores: há pessoas com intensidade extrema numa dimensão e quase nenhuma em outra. Há quem seja inundada por sons e luz, mas tenha fluência social aparente. Há quem cumpra prazos com precisão e, ao mesmo tempo, não consiga organizar o que vai comer amanhã. Não existe uma aparência padrão de autismo — porque o espectro não coloca pessoas em sequência. Ele distribui características em combinações únicas. O que une não é a apresentação externa, mas o modo de processar o mundo por dentro.
Durante muitos anos aceitei calada alguns rótulos: esquisita, nerd, antipática, estranha. Não porque concordava — mas porque não tinha outro vocabulário para o que sentia. Mais tarde aprendi a performar. A observar como as pessoas faziam as coisas e imitar. A guardar o que realmente sentia para não confirmar mais um rótulo.
Essa performance tem nome: mascaramento. É o esforço invisível de caber num molde que nunca foi feito para você. Custa caro — em energia, em autenticidade, em saúde. E o preço aparece décadas depois, quando o corpo finalmente diz que não aguenta mais.
Mesmo sendo psicóloga, neuropsicóloga e mãe atípica, levei tempo para reconhecer minha própria neurodivergência. O ponto de virada veio quando parei de minimizar e me perguntei: e se tudo isso tiver um nome? Para mim, a resposta foi autismo e TDAH. Para quem chega aqui, pode ser autismo, TDAH, perfil misto — ou apenas o reconhecimento de um funcionamento diferente que merece ser entendido.
E se tudo isso tiver um nome — e esse nome não mudar quem você é?
Se alguém já te disse que você — essa carta foi escrita depois de uma tarde de trabalho que ficou pesada demais.
Só mais tarde encontrei autoras que deram nome ao que eu vivia: Steph Jones, Devon Price, Jenara Nerenberg e tantas outras mulheres autistas que vêm reconstruindo o olhar sobre o autismo em adultos.
"O que há de estranho em mim não é erro — é linguagem."
Durante muito tempo, os manuais e critérios da psicologia foram escritos a partir de um olhar masculino e neurotípico. Por isso, tantas mulheres cresceram mascarando, tentando caber em moldes que nunca foram feitos para elas. Até que o espelho se acalma — e o reflexo, enfim, se revela nítido.
A minha própria experiência — assombrosa e libertadora — de finalmente me reconhecer como autista e com TDAH me levou a repensar também minha prática clínica. Passei a buscar instrumentos de rastreio e avaliação capazes de acolher as singularidades do autismo e do TDAH em pessoas com um funcionamento aparentemente exitoso, mas que vivem exaustas por sustentar o próprio mascaramento.
O Espelho-d'Água nasce desse encontro entre teoria e vida, entre o olhar clínico e o sentir cotidiano. Não é sobre consertar. É sobre compreender, honrar e encontrar beleza nas formas diferentes de existir.
Scheilla Soares — psicóloga e neuropsicóloga CRP 12/01849
Escutas e Travessias — Psicologia Neuroafirmativa
O que as pessoas costumam perguntar
Perguntas comuns
Ferramenta gratuita
Questionário de Camuflagem Autística
Para quem passou anos aprendendo a parecer o que não é. Uma escuta — não um diagnóstico.
O CAT-Q foi desenvolvido por pesquisadoras para mapear comportamentos de camuflagem — o esforço de adaptar quem você é ao que o ambiente espera. Responda com honestidade, sem pressa. Não existe resposta certa ou errada aqui.
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