
Marés
TDAH, bagunça e coisas escondidas
Um armário cheio de projetos inacabados — tricô, aquarela, patchwork — e a descoberta de que talvez o problema nunca tenha sido não terminar, mas viver tentando caber num modelo que não é o dela.
Venho há dias tentando lidar com algumas tarefas que me deixam bastante desanimada.
Mal tenho energia para pensar nisso, mas hoje decidi que definitivamente não dava mais para continuar olhando para o caos no meu quarto da bagunça — vulgo escritório — e para os armários abarrotados.
E foi olhando para aquilo, e principalmente para a minha dificuldade de me desfazer de algumas coisas, que acabei tropeçando em muitos projetos iniciados e deixados de lado.
Essa coisa de ter TDAH é complexa mesmo.
Um viva enorme para a criatividade, para a curiosidade, para aquela vontade maravilhosa de descobrir uma coisa nova, mas também uma dificuldade imensa de lidar com as nossas próprias empolgações quando elas não se sustentam ao longo dos anos.
Eu gosto muito de trabalhos manuais.
E, como Deus me livre fazer sempre a mesma coisa, fui acumulando interesses.
Tricô, crochê, pintura, patchwork, pastéis, aquarelas, pintura em tecido, pintura em madeira, porcelana, vidro...
Fiz dezenas de cursos.
E posso até dizer que sei fazer muita coisa.
Só não consigo ser aquela pessoa que escolhe uma modalidade, se especializa nela e pronto.
Minha mãe fazia tricô e ponto cruz.
PERFEITAMENTE.
E era só isso.
Já eu, não.
E foi olhando para aquela infinidade de materiais que me lembrei de Manoel de Barros:
“Palavras que me aceitam como sou — eu não aceito. Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros.”
— Manoel de Barros
Talvez seja isso.
Eu preciso ser Outros.
Preciso experimentar outras coisas, aprender outras técnicas, descobrir como funciona aquilo que nunca fiz.
O problema é que esses Outros todos deixam coisas nos armários.
Tintas.
Pincéis.
Tecidos.
Papéis.
Ferramentas.
Caixas.
Projetos pela metade.
E foi aí que percebi que talvez houvesse alguma coisa escondida no meio daquela bagunça.
Porque minha dificuldade não era apenas decidir o que ficava e o que ia embora.
Era admitir que alguns projetos não seriam terminados.
E então me lembrei de outra coisa.
Das grandes brigas em casa.
Dos infinitos sermões que ouvi durante a infância:
Você não termina nada do que começa.
Mentira.
Eu sei.
Agora eu sei — naquela época, eu não sabia.
E fiquei pensando se uma parte da minha dificuldade de jogar fora até tintas para tecido vencidas não poderia estar justamente aí.
Como se desistir de um projeto confirmasse alguma coisa que disseram sobre mim muitos anos atrás.
Como se eu precisasse guardar os materiais porque, enquanto eles estiverem ali, tecnicamente eu ainda posso terminar.
A garrafa ainda pode ser pintada.
A mandala ainda pode ser feita.
O tecido ainda pode virar alguma coisa.
O projeto não morreu.
Ele está apenas... esperando.
E, se está esperando, então talvez eu não seja aquela pessoa que “não termina nada”.
Não sei se é uma associação meio maluca, mas hoje ela fez sentido para mim.
Porque talvez eu possa simplesmente assumir:
Eu não quero terminar alguns desses projetos.
E isso é diferente.
Não porque sou incapaz.
Não porque fracassei.
Não porque “nunca termino nada”.
Simplesmente porque já fiz aquilo.
Já gostei daquilo.
Já experimentei.
Já pintei garrafas com tinta vitral. Já fiz mandalas. Já pintei tecido. Já encapei caixas. Já trabalhei com vidro.
Aquelas coisas foram minhas.
Foram importantes enquanto foram.
E talvez isso baste.
Talvez ser Outros não signifique precisar guardar para sempre os restos de todos aqueles que eu já fui.
Posso doar as tintas.
Posso jogar fora o que venceu.
Posso deixar aqueles materiais irem embora.
— Ah, mas e se daqui a algum tempo eu quiser pintar garrafas novamente?
Bom.
Nesse caso, compro algumas tintas novamente.
Não preciso manter um pequeno depósito de materiais artísticos durante anos apenas para garantir todas as versões possíveis de mim mesma.
E talvez essa tenha sido a parte mais difícil de perceber:
Eu não preciso decretar que NUNCA MAIS vou pintar tecido, fazer patchwork ou trabalhar com vidro.
Não precisa ser tão definitivo.
Posso simplesmente dizer:
Agora, não.
Pastéis ficam.
Aquarelas ficam.
Talvez todo o restante possa ter outro destino.
E aí aconteceu uma coisa curiosa.
Comecei pensando em organizar armários.
Terminei pensando em vazio.
Porque talvez eu não precise tirar essas coisas de lá para colocar outras no lugar.
Talvez eu possa simplesmente abrir espaço.
E deixar o espaço vazio.
Sem imediatamente inventar um novo projeto.
Sem comprar outro material.
Sem decidir qual será minha próxima grande paixão.
Sem transformar cada espaço disponível em uma nova possibilidade que precisa ser preenchida.
Talvez abrir esse vazio nos meus projetos artísticos me permita ficar com poucas coisas por algum tempo.
Talvez diminua um pouco aquela paralisia estranha que aparece justamente quando há possibilidades demais.
Ou talvez não aconteça nada.
E acho que estou começando a gostar dessa possibilidade também.
Um armário com espaço.
Uma prateleira vazia.
Uma caixa que vai embora sem que outra ocupe seu lugar.
Um pedaço da vida que ainda não precisa ter projeto.
Porque, pensando bem, talvez eu tenha confundido durante muito tempo duas coisas diferentes:
Precisar ser Outros e precisar continuar sendo todos os Outros que já fui.
Não é a mesma coisa.
Talvez também tenha confundido outra coisa.
Achar que precisava me consertar — encaixar num jeito de funcionar que nunca foi feito para mim.
Talvez o problema nunca tenha sido eu.
Talvez fosse só o modelo errado.
Posso agradecer àquela que pintava garrafas.
Àquela que comprou tecidos.
Àquela que aprendeu patchwork.
Àquela que teve certeza de que faria dezenas de coisas com aquelas tintas.
Elas existiram.
Algumas fizeram muito.
Outras fizeram pouco.
Algumas deixaram projetos inacabados.
Tudo bem.
Talvez eu possa deixar algumas delas irem agora.
Não para finalmente me tornar uma só.
Deus me livre.
Ainda preciso ser Outros.
Só que talvez os próximos Outros precisem justamente de alguma coisa que eu tenho tido dificuldade de lhes oferecer: espaço.
Espaço para alguma coisa que eu ainda não sei.
Espaço para uma vontade que ainda não apareceu.
Espaço até para vontade nenhuma.
Talvez algumas coisas novas só consigam surgir quando não ocupamos previamente todos os lugares disponíveis.
E talvez eu não precise saber ainda o que vai nascer ali.
Por enquanto, posso apenas abrir espaço.
E deixar o vazio existir.
Scheilla Soares · Escutas e Travessias. Para citar, mencione a autora e o projeto.
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