
O Espelho-d'Água
Talvez nunca tenha sido o bolo
Sobre festas, pertencimento e as coisas que o corpo talvez tenha aprendido a dizer antes que eu tivesse palavras para elas.
Na semana passada, houve uma confraternização no meu trabalho. Uma colega vai se afastar para fazer o doutorado e organizaram uma despedida para ela: havia balões, vários quitutes sobre a mesa, cartões, discursos e uma surpresa preparada com carinho. Era uma celebração bonita, e ela merecia aquela homenagem.
E eu estava ali.
Do jeito que quase sempre estou nesses momentos: sem saber muito bem onde colocar as mãos e tentando sustentar no rosto a expressão que se espera de alguém que participa de uma comemoração. Não porque eu não estivesse feliz por ela, mas simplesmente porque eu estava ali.
Eventos sociais sempre foram difíceis para mim. Há algo nesses momentos em que parece que todo mundo recebeu, em algum momento da vida, instruções muito simples sobre como habitar aquele espaço — e eu não. As pessoas se aproximam umas das outras, formam pequenos grupos, entram e saem das conversas; sabem quando sorrir, quando abraçar, quando fazer uma brincadeira, quando interromper, quando chegar mais perto. Depois alguém chama para a fotografia e todos parecem saber o que fazer com o rosto, com os braços, com o próprio corpo.
Eu penso em cada uma dessas coisas.
Naquele dia, em determinado momento, eu estava literalmente encostada na parede. Meu corpo estava tenso enquanto eu observava os pequenos grupos que se formavam e procurava algum sinal de abertura que me dissesse: você pode entrar aqui.
E não encontrava.
Foi então que alguma coisa naquela cena começou a me parecer conhecida.
Muito conhecida.
Eu sou autista. Minha comunicação frequentemente é percebida como excessivamente assertiva ou até grosseira, minha linguagem corporal nem sempre comunica aquilo que sinto, interajo pouco e tenho dificuldade para perceber essas pequenas frestas pelas quais as pessoas parecem entrar naturalmente na vida umas das outras.
Hoje eu sei algumas dessas coisas sobre mim. Entretanto, enquanto observava meus colegas naquela confraternização, comecei a pensar na criança que fui e me lembrei das festas de aniversário.
Quando eu era criança, havia uma coisa que acontecia com uma frequência curiosa: depois de algumas festas de aniversário — de parentes, colegas, outras crianças — eu chegava em casa passando muito mal. Vomitava naquela noite e, às vezes, continuava mal durante todo o dia seguinte; depois, passava alguns dias quase só tomando chá.
A explicação era sempre a mesma: o bolo.
Devia ter sido o bolo.
Minha mãe também reforçava essa hipótese e, durante muitos anos, essa lembrança ficou guardada assim dentro de mim: eu passava mal em festas porque alguma coisa que eu comia não me fazia bem.
No entanto, naquele dia, tantos anos depois, encostada naquela parede e olhando as pessoas conversarem, uma pergunta apareceu:
E se nunca tivesse sido o bolo?
Não tenho como voltar até ela e descobrir exatamente o que acontecia em seu corpo. Talvez o bolo realmente tivesse alguma participação naquela história. Hoje, porém, existe outra possibilidade que consigo enxergar.
Talvez houvesse uma criança dentro de um ambiente cheio de vozes, movimentos, cheiros, comida, expectativas e códigos sociais que ela não compreendia. Uma criança olhando outras crianças brincarem e tentando descobrir como se entra numa brincadeira que já começou; esperando alguma abertura, tentando entender onde colocar o corpo, talvez querendo participar e, ao mesmo tempo, não sabendo como.
Há algo especialmente doloroso em estar cercada de pessoas e não encontrar a porta de entrada para estar com elas.
Na confraternização do trabalho, décadas depois, eu reconheci essa sensação. Os adultos também formam pequenos grupos e também existem movimentos quase invisíveis de aproximação e pertencimento: alguém conta uma história, outro se aproxima, alguém toca o braço de alguém, uma roda se abre e depois se fecha. Para muitas pessoas, talvez isso aconteça sem que seja necessário pensar.
Eu ainda observo. Ainda procuro o momento certo. Ainda fico, algumas vezes, junto à parede.
A diferença é que hoje eu posso ir embora.
E quase sempre vou embora cedo.
Durante muito tempo, enxerguei isso apenas como uma característica minha: não gosto muito de confraternizações, não sou sociável, prefiro ficar pouco tempo. Hoje percebo também como uma forma de proteção.
A criança que eu fui não tinha essa possibilidade. Ela não podia simplesmente decidir que já tinha sido suficiente e voltar para casa; provavelmente precisava permanecer ali até que os adultos decidissem que era hora de ir.
E talvez tenha sido isso que mais me atravessou naquela tarde: imaginar aquela menina permanecendo na festa, assistindo aos outros brincarem, tentando compreender uma linguagem que parecia espontânea para todo mundo menos para ela e acumulando no corpo aquilo que ainda não sabia dizer.
Até chegar em casa.
E vomitar.
Talvez tenha sido o bolo.
Ou talvez, durante todos esses anos, eu tenha chamado de bolo uma coisa para a qual ainda não tinha nome.
Penso agora em quantas crianças autistas talvez estejam vivendo suas próprias versões dessa história: a criança que "não gosta de festa", a que fica num canto, a que começa a pedir insistentemente para ir embora, a que se irrita aparentemente sem motivo, a que chora depois, a que passa mal.
A que parece não querer brincar com ninguém quando talvez esteja apenas olhando para as outras crianças e tentando desesperadamente descobrir como se faz para chegar até elas.
Nem todo afastamento é desinteresse.
Às vezes, existe desejo de pertencer.
O que não existe é um caminho acessível para chegar.
Naquele dia, olhando meus colegas, eu não encontrei esse caminho. Fiquei algum tempo junto à parede, sorri quando precisava sorrir, participei da fotografia, abracei quem precisava abraçar e depois fui embora.
No entanto, alguma coisa veio comigo: a lembrança daquela menina e de todas aquelas festas.
Talvez ela não precisasse que alguém descobrisse o que havia de errado com o bolo.
Talvez precisasse apenas que alguém percebesse que, no meio de tanta gente, havia uma criança tentando encontrar um lugar onde pudesse existir sem precisar descobrir, o tempo inteiro, onde colocar as mãos.
Scheilla Soares · Escutas e Travessias. Para citar, mencione a autora e o projeto.
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