
O Espelho-d'Água
Devaneios autísticos no início da manhã
Uma manhã comum no trabalho, um livro técnico em inglês sobre TDAH, e a percepção repentina da distância entre estar ali e estar com os colegas no corredor.
Cheguei ao trabalho hoje, assim como em todos os dias, logo cedo. O sol ainda despontando, iluminando o campus.
Como os estudantes estão em recesso, tudo aqui são os sons comuns dos colegas.
Ouço o som de algumas conversas pelo corredor... Alguém fez um café.
Aqueci água para um chá.
Computador ligado, lendo os emails. Respondendo às demandas da comissão de horários... enfim, tudo certo.
Sigo nas tarefas do dia e, como há muito pouco o que fazer nessa segunda-feira, começo a ler um livro técnico.
Livro em inglês, título interessante: "Tudo o que você queria saber sobre TDAH, mas esqueceu de perguntar" (tradução livre).
Fiquei rindo um tempo porque achei que o título é uma bela descrição — jocosa, mas ainda assim inteligente para um título de livro.
Segui lendo, buscando o Google Tradutor quando ficava difícil (detalhe: fica difícil traduzir o tempo todo).
E, em algum momento, me dei conta de que já se passara bastante tempo — eu lendo, os colegas em outras salas tomando café, conversando, provavelmente comentando o final de semana.
E de repente eu pensei: isso é tão autista. O mundo correndo ali ao lado, entre interações e café, e eu aqui na sala, muito concentrada, lendo um livro em inglês sobre TDAH.
Confesso que por um rápido momento pensei que deveria ir até onde estavam os colegas e, quem sabe, tentar interagir um pouco. Mas essa ideia não me animou.
Por quê? Porque por mais que eu me esforce, simplesmente não consigo participar ativamente — e olha que me esforço. Só que eu realmente fico um pouco perdida: quando devo comentar? Quando o comentário da colega pede um sorriso?
É claro que eu conseguiria fazer isso. Já beirando os 60, evidentemente aprendi a acompanhar essas conversas corriqueiras e comuns do dia a dia. Mas ainda assim é necessário alguma concentração, olhar atento, e por mais que eu me esforce, sempre fico com a sensação de que sou a "faísca atrasada" do grupo.
E como não fui para a cozinha, nem me esforcei mais uma vez para participar da conversa matinal, fica uma sensação qualquer de que, de algum modo, eu falhei. De que deveria me esforçar mais, de que deveria fechar o livro e pegar uma xícara de café, só para ouvir como foi o final de semana dos colegas.
No entanto, há algo que me cansa muito: os múltiplos sons. Estou aqui, agora com a colega na sala, com muita vontade de colocar o fone, porque tem alguém conversando no corredor.
E as pessoas não percebem que qualquer corredor ecoa o som.
Enfim, segui no livro.
Parei um pouco para escrever esse texto.
Devaneios autísticos no início do dia.
Agora vou tentar seguir minha leitura. Ler é sempre mais fácil do que interagir.
Posso parar a leitura, buscar uma palavra que não entendi.
Ler também exige muito pouco de uma interpretação das entrelinhas. Não há tons de voz, nem pessoas falando quase ao mesmo tempo. Consigo acompanhar.
Eu poderia sentar-me tranquilamente com cada um dos meus colegas e ouvir, paciente e interessadamente, sobre o seu final de semana.
O que eu não consigo fazer, sem custo, é participar de rodas de conversa logo pela manhã e tentar acompanhar a todos ao mesmo tempo.
Estou rindo aqui porque rapidamente criei na mente uma imagem perfeita: uma espécie de assembleia, com inscrição, tempo para cada um falar e sem apartes. O mundo perfeito para um autista, e absurdo para não autistas.
Enfim, hora de seguir com o dia.
Scheilla Soares · Escutas e Travessias. Para citar, mencione a autora e o projeto.
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