O Espelho-d'Água

Talvez eu não precise sair mais

Garrafas ao Mar

Um inventário bem-humorado — e também bastante honesto — de tudo que uma festa comum exige do corpo e da atenção de uma pessoa autista: música alta, comida, cheiros, subgrupos, conversas cronometradas.

Nesta semana escrevi sobre uma situação bastante corriqueira, mas também bastante difícil para mim: eventos sociais.

E fiquei pensando que talvez este seja um dos primeiros textos em que apresento algumas das minhas dificuldades em participar de situações consideradas absolutamente comuns — uma festa de aniversário, por exemplo.

Sem querer transformar isso numa crítica aos neurotípicos — juro —, acho que quem não vive esse tipo de sobrecarga talvez não faça ideia de como eventos tidos como prazerosos podem ser difíceis para uma pessoa neurodivergente.

Para mim, muitas coisas que acontecem nessas situações simplesmente não fazem sentido.

Então quero apresentar hoje — um pouco como desabafo e talvez com alguma esperança de ser compreendida — como esses eventos sociais são vistos por uma pessoa ND.

Em primeiro lugar no ranking das minhas incompreensões: música ambiente.

Como é que uma música alta, ao fundo, pode ajudar alguma coisa?

Tudo o que eu percebo é o seguinte: há uma música saindo de algum lugar do ambiente, geralmente num volume mais alto do que aquele em que eu a ouviria. A acústica dificilmente é boa — pense num salão de festas. Como a música está ali, todos precisam falar mais alto. E, se temos muitas pessoas na sala, o resultado é um ruído que, na minha percepção, poderia ser medido em decibéis por alguém do outro lado da rua.

Aí as pessoas tentam conversar.

De repente alguém fala alguma coisa, algumas pessoas riem — às vezes riem muito alto — e eu nem sempre entendo por quê.

Rio atrasada. Às vezes forço uma risada e mais pareço o Sheldon Cooper. Ou, como me chamavam na adolescência, a faísca atrasada do grupo.

Mas deixa eu contar um segredo: muitas vezes eu simplesmente não acho graça.

Especialmente quando a graça depende de alguém sendo ridicularizado, caindo, se machucando ou passando por alguma situação constrangedora. Enquanto todo mundo ri, eu frequentemente estou preocupada com a pessoa.

Juro.

Às vezes tenho vontade de abraçar o tal personagem engraçado — e olha que eu nem sou de abraçar os outros.

Em segundo lugar no ranking vêm os comes e bebes.

E aqui começa outro mistério para o meu cérebro: como é que todas aquelas coisas, juntas, formam um cardápio?

Cada um traz alguma coisa e, de repente, a mesa tem uma variedade de alimentos que, se você ousar experimentar todos, talvez exijam certa coragem do sistema digestivo.

Sei, sei. Você já está querendo dizer: "Mas, às vezes, é só o cardápio comum de uma festa."

Então vamos lá.

Salgadinhos, muitas vezes fritos. De frango, carne, queijo...

Deixa eu contar: você sabia que cada uma daquelas coisas tem um cheiro específico? E que, quando esses cheiros são misturados, às vezes eles parecem completamente incompatíveis?

Pois bem.

Como se não bastassem os salgadinhos, geralmente há um bolo ou alguma coisa parecida — e muitas vezes são realmente muito saborosos.

Mas, se você já comeu uma empada, uma coxinha e um quibe, talvez seu estômago não esteja exatamente implorando por uma torta com vários recheios, seguida de refrigerante ou suco.

E — pasme — ainda temos os docinhos.

Haja fígado.

Ok. Seguimos.

Agora, em meio a esse festival de odores, sons, sabores e texturas, ainda tem que interagir.

Juro!

Interagir.

No meio da música alta, das risadas e já com o estômago pedindo um chá de boldo.

E lá vai a pessoa ND tentando conversar, esquecendo o enjoo, a música, as vozes e, é claro, todos os perfumes possíveis.

Porque é uma festa.

Prepare-se para perfumes adocicados, amadeirados, florais — esses um pouco menos, é verdade — misturados aos cheiros das comidas.

Às vezes tenho a impressão de que entrei numa loja de perfumes que, por algum motivo, também está servindo coxinha.

Enfim, lá vai a pessoa ND fingindo que nada disso está acontecendo.

Ela se aproxima de um subgrupo.

Juro que já contei, numa única festinha, algo em torno de vinte subgrupos.

E aí surge outra questão: como a gente escolhe?

Será que, se eu me aproximar de um grupo, alguma colega do outro vai achar que eu não quero a companhia dela?

Bom, digamos que eu escolha aleatoriamente o primeiro — já sabendo que, em algum momento, precisarei circular antes que a irmã da colega da diretora ache que eu não fui simpática o suficiente.

Primeiro grupo.

Tento abrir um espaço. Às vezes a escolha acontece justamente porque, em algum subgrupo, as pessoas não fecharam completamente o círculo como se estivessem prestes a começar uma cantiga de roda.

Digamos que eu consiga.

Geralmente procuro alguém com quem tenha alguma intimidade e me aproximo. Na maioria das vezes — mas nem sempre — a pessoa abre um espaço e eu posso, literalmente, entrar na conversa.

E aí vem outra parte curiosa.

O que são, geralmente, essas conversas?

Cada pessoa conta uma história. Alguma coisa que aconteceu com ela ou com alguém que conhece. Logo aparecem mais três ou quatro pessoas contando situações semelhantes e eu começo a ter a impressão de que cada história precisa acrescentar alguma coisa à anterior: mais surpreendente, mais complicada, mais dramática.

E aí você precisa acompanhar.

E não apenas acompanhar.

Precisa lembrar de fazer as expressões adequadas enquanto o outro conta.

Acenar afirmativamente com a cabeça.

Sorrir.

Fazer cara de espanto.

Às vezes tudo isso quase ao mesmo tempo.

Digamos que eu tenha conseguido acompanhar esse grupo.

Mas daí lembro que existem outras colegas espalhadas pelos outros subgrupos e, claro, começo a pensar que, se eu não falar com elas, talvez imaginem que estou chateada, que não estou bem ou sei mais lá o quê.

Então sigo na romaria.

Próximo subgrupo.

Já sentindo a profusão de aromas, barulhos e brilhos — das roupas de algumas pessoas, das luzes da sala — e tentando fazer uma cara de paisagem como se eu já não estivesse enjoada e com dor de cabeça.

Chego ao segundo subgrupo.

E lá estão comentando as notícias da semana.

Aqui encontro outra dificuldade: eu quase nunca sei do que estão falando.

Não acompanho noticiários regularmente. Quando alguma coisa importante finalmente atravessa meus filtros, eu vou atrás, leio, tento compreender. Mas acompanhar diariamente aquela sucessão de acontecimentos, política, tragédias, celebridades e assuntos que parecem ser conhecimento obrigatório para uma conversa social me custa muito.

“Ah, mas você precisa se informar”, alguém poderia dizer.

E eu penso: preciso me informar sobre o quê?

Porque informação não me falta. Eu leio, estudo e procuro aprender alguma coisa praticamente todos os dias. O que acontece é que nem sempre são as mesmas coisas que estão circulando nas conversas daquela semana.

E, nessas horas, penso que talvez devesse fazer uma pequena pesquisa antes de sair de casa:

“Assuntos sobre os quais todo mundo estará falando esta semana.”

Pelo menos eu chegaria minimamente preparada.

Porque minha cara de espanto nem sempre significa espanto com a notícia.

Às vezes estou espantada tentando descobrir por que todo mundo sabe aquilo e eu não.

Ou tentando encontrar alguma coisa para dizer sobre um assunto que simplesmente não passou pelos meus interesses.

E agora rio enquanto escrevo isso porque lembrei da minha mãe.

Ela tinha o hábito de recortar notícias do jornal e trazer para mim.

Que querida.

Sem saber, ela fazia uma coisa preciosa: filtrava o mundo.

No meio de tudo aquilo que eu provavelmente jamais leria, encontrava uma ou outra reportagem que conversava com meus interesses de estudo e me entregava justamente aquela.

Era uma espécie de curadoria materna do mundo para uma filha que ainda nem sabia que precisava de curadoria.

Enfim.

Quando finalmente desisto de passar vergonha por não ser a pessoa mais informada da festa, caminho em direção a outro subgrupo, torcendo para ninguém estar comentando o Fantástico ou alguma novela.

E, quando finalmente encontro algum território seguro, alguém está falando de crianças, filhos ou até mesmo de receitas saborosas.

Ufa!

Posso ficar.

Só que nem sempre isso funciona.

Porque ser ND é algo que a gente não controla e, quando percebo, lá estou eu fazendo uma pequena palestra sobre algum aspecto do desenvolvimento infantil diante de colegas ou parentes que provavelmente não tinham a menor intenção de assistir a uma palestra naquele momento.

E então percebo.

Talvez tenha me empolgado.

De novo.

Resumo do dia: muito esforço, muita informação, muita sobrecarga.

E, quando finalmente vou embora, ainda tenho a sensação de ter sido esquisita.

Repasso conversas.

Penso se falei demais. Se falei de menos. Se deveria ter conversado com alguém que não encontrei. Se fiz alguma cara estranha quando deveria ter sorrido. Se fiquei tempo demais num grupo. Se saí cedo demais de outro.

Talvez essa seja uma das partes mais cansativas dos eventos sociais para mim: não é apenas estar lá.

É passar horas tentando parecer perfeitamente à vontade em um ambiente no qual meu corpo inteiro está dizendo que há informação demais acontecendo ao mesmo tempo.

E talvez aqui esteja uma coisa difícil de explicar para quem insiste que eu deveria sair mais:

eu não quero necessariamente conviver menos com as pessoas.

Às vezes quero até conviver mais.

Só preciso que seja de outro jeito.

Uma pessoa. Duas.

Uma conversa em que eu consiga realmente ouvir o que o outro está dizendo e tenha tempo para pensar no que quero responder.

Um encontro em que estar com alguém não signifique, ao mesmo tempo, tentar filtrar música, vozes, cheiros, luzes e movimentos enquanto calculo se estou fazendo corretamente todas aquelas pequenas coisas que parecem acontecer de maneira tão natural para outras pessoas.

Talvez por isso, quando alguém olha para mim e diz:

“Você precisa sair mais.”

Uma parte de mim pense:

Será?

Talvez eu não precise sair mais.

Talvez eu precise encontrar as pessoas de um jeito em que eu consiga, de fato, estar com elas.

E então volto para casa e revejo mentalmente a agenda, tentando descobrir quantos eventos ainda existem até o fim do ano — e em quantos deles conseguirei inventar uma desculpa socialmente aceitável para ficar em casa.

Lendo.

Com uma música instrumental baixinha ao fundo.

Provavelmente alguma coisa para foco, com ondas de sei lá quantos megahertz.

E, finalmente, sem precisar fazer a cara certa para ninguém.

Scheilla Soares · Escutas e Travessias. Para citar, mencione a autora e o projeto.