← Voltar ao Farol

Online, por videochamada

Avaliação de adultos

A avaliação neuropsicológica funciona assim: não elimina aquilo que é difícil, mas ilumina o terreno com precisão suficiente para que você — e quem a acompanha — possa se orientar.

A maioria das pessoas que chega aqui vem com uma desconfiança específica — TEA, TDAH, AuDHD, às vezes AHSD. Diagnóstico desses quadros segue sendo clínico, em primeiro lugar: não há teste que feche TEA ou TDAH preto-no-branco. Os instrumentos entram para ajudar a ler e fazer descarte do que não cabe.

O processo começa por uma entrevista clínica inicial semi-estruturada, online, por videochamada com compartilhamento de tela. Nela mapeamos a queixa, a história, as possibilidades — e definimos o escopo da avaliação.

A partir dela, parto de uma bateria inicial pequena, com instrumentos validados em apresentação online. Conforme o que aparece, sigo aprofundando — só o caminho que se revela necessário. Tenho um acervo amplo de instrumentos validados (autismo, TDAH, camuflagem, alexitimia, ansiedade social, burnout, executivas, perfil cognitivo) e escolho caso a caso.

Os instrumentos são apresentados um a um, com possíveis pausas se necessárias. A clínica acontece também na leitura corporal — tensão, fadiga, irritação a um item, literalidade na resposta são dados clínicos primários, junto com a pontuação.

O princípio é o mesmo da clínica geral: na dor aguda, o médico investiga o que está pesando, não pede trinta exames. No check-up, sim — mas raramente é o que a pessoa precisa quando chega com sofrimento real. Avaliação focada respeita tempo e dinheiro da pessoa, e protege contra mal-interpretação — porque a maioria dos testes foi padronizada para o funcionamento neurotípico, ou seja, o funcionamento da maior parte da população. Medir alguém autista por uma régua que não foi feita para ele abre espaço para erro.

Se os instrumentos iniciais não trazem nada que mereça aprofundamento, paramos por aí. Não medimos o que não precisa ser medido.

Interpretação e neurodivergência

Quando os testes foram feitos para outro funcionamento

Os instrumentos de avaliação neuropsicológica foram construídos tendo como referência parâmetros do funcionamento neurotípico. O mesmo resultado obtido num instrumento não necessariamente tem o mesmo significado para uma pessoa neurotípica e para uma pessoa neurodivergente.

Isso importa na hora de interpretar.

Na clínica com pessoas autistas, é frequente a necessidade de maior precisão para entender o que está sendo perguntado. "Como assim essa questão?" "Depende." "Preciso de mais informação para responder." Isso não é dificuldade em realizar a tarefa — é a exigência de precisão que o autismo coloca na linguagem. Uma questão que parece simples para um funcionamento neurotípico pode exigir muito mais elaboração de uma pessoa autista.

A leitura clínica precisa considerar o quanto a própria neurodivergência influenciou a forma como a pessoa compreendeu, respondeu e executou cada tarefa. Não para desconsiderar os instrumentos — mas para qualificar o que eles dizem.

Neurodivergência e sofrimento psíquico

Quando o sofrimento cobre o funcionamento

Não é raro receber adultas e adultos que chegam com um quadro depressivo ou ansioso evidente — confirmado também por acompanhamento psiquiátrico. Esse sofrimento é real. Precisa ser tratado.

À medida que o tratamento avança e esses sintomas diminuem, às vezes começa a aparecer com mais clareza algo que esteve ali desde sempre, mas que estava encoberto: características compatíveis com um funcionamento neurodivergente.

Algumas pessoas chegam com histórias longas. Diferentes diagnósticos ao longo dos anos. Diferentes medicações. Diferentes tratamentos que produziram resultados menores do que o esperado. Reconhecer a neurodivergência como parte do funcionamento pode mudar a compreensão de tudo que veio antes — e abrir outros caminhos.

Isso não invalida os diagnósticos anteriores. Propõe que, em alguns casos, uma dimensão importante do funcionamento permaneceu sem reconhecimento por muito tempo.

Instrumentos

Sobre os instrumentos

A avaliação utiliza instrumentos aprovados pelo SATEPSI e segue as resoluções do Conselho Federal de Psicologia. Para o formato online, são utilizados instrumentos cuja aplicação remota é autorizada pelo CFP.

A produção científica internacional sobre diagnóstico tardio de autismo e TDAH em adultos é consideravelmente mais consolidada do que a brasileira. Pesquisadores em outros países desenvolveram instrumentos para investigar aspectos específicos do funcionamento neurodivergente — camuflagem (masking), empatia, perfis sensoriais — que ainda não foram validados para uso diagnóstico no Brasil, mas que representam contribuições importantes para a compreensão clínica.

Alguns desses instrumentos foram estudados, traduzidos ou adaptados para uso como apoio ao raciocínio clínico. Ajudam a investigar aspectos para os quais ainda existem poucas ferramentas disponíveis no contexto brasileiro. Nunca funcionam como instrumentos diagnósticos isolados ou como fontes únicas de conclusão.

Não existe um teste que, sozinho, diagnostique autismo ou TDAH. O diagnóstico é clínico — depende da integração de múltiplas fontes de informação. Os instrumentos existem a serviço dessa compreensão.

O que acontece depois

A devolutiva não é uma simples entrega de resultados. É um encontro no qual aquilo que foi encontrado pode ganhar sentido junto com a pessoa. Muitas vezes, esse momento produz impactos maiores do que se imaginava no início do processo.

Uma avaliação neuropsicológica não é ponto final. É ponto de partida. O que vem depois é o trabalho de fazer sentido do que foi mapeado: como reorganizar rotina, como sustentar o cotidiano com o que se compreendeu.

O que você precisaria que fosse diferente?

No final das contas, acredito que uma boa avaliação neuropsicológica não entrega apenas um laudo. Ela oferece uma compreensão mais profunda sobre como aquela pessoa percebe o mundo, organiza seu pensamento, aprende, se relaciona, enfrenta dificuldades e construiu estratégias para viver.

Quando existe um diagnóstico, ele é importante. Quando não existe, essa compreensão continua sendo valiosa.

Porque o objetivo da avaliação nunca foi apenas dar um nome às dificuldades de alguém. O objetivo é oferecer um mapa que permita à pessoa compreender melhor a si mesma — e encontrar formas mais humanas, mais conscientes e mais respeitosas de viver com o próprio funcionamento.

Os materiais da Biblioteca seguem disponíveis para leitura no próprio tempo, como apoio fora do encontro.