Farol da Praia de Naufragados — Florianópolis

O Farol

Avaliação neuropsicológica

Você pode ser alguém que sempre deu conta — que trabalha, sustenta relações, entrega o que precisa entregar. E ainda assim gasta, todos os dias, um esforço que quase ninguém enxerga.

Avaliar adultos muito funcionais é um dos pontos mais delicados da minha prática. Muitos profissionais não conseguem ver a neurodivergência por trás de um funcionamento que aparenta estar bem.

São mais de 30 anos de clínica olhando exatamente para esse ponto. Boa parte desse tempo, sem eu mesma saber que sou AuDHD.

Um farol não remove os recifes — mostra onde eles estão.

Uma pergunta diferente

A pergunta que importa

Há uma pergunta que atravessa todo o processo de avaliação aqui, e ela não é "a pessoa tem ou não tem?". É: como essa pessoa funciona?

Essa distinção muda tudo.

Existem pessoas que passam por uma avaliação completa e não preenchem critérios diagnósticos formais para autismo ou TDAH. Isso não significa que não haja nada clinicamente relevante. Existem traços, padrões e modos de funcionamento que produzem impactos reais no cotidiano — mesmo quando não configuram um transtorno segundo as classificações atuais.

Quando a pergunta é sobre o funcionamento, novas possibilidades aparecem. Estratégias desenvolvidas para pessoas com TDAH podem ser úteis para alguém com dificuldades importantes em organização, memória de trabalho ou gestão do tempo, mesmo que a origem dessas dificuldades seja outra. O conhecimento produzido sobre cérebros neurodivergentes pode iluminar experiências que vão além dos critérios formais.

O objetivo final é que você saia da avaliação entendendo melhor como funciona — com recursos concretos para lidar com as dificuldades que a trouxeram até aqui.

Neurodivergência e sofrimento psíquico

Quando o sofrimento cobre o funcionamento

Não é raro receber adultas e adultos que chegam com um quadro depressivo ou ansioso evidente — confirmado também por acompanhamento psiquiátrico. Esse sofrimento é real. Precisa ser tratado.

À medida que o tratamento avança e esses sintomas diminuem, às vezes começa a aparecer com mais clareza algo que esteve ali desde sempre, mas que estava encoberto: características compatíveis com um funcionamento neurodivergente.

Algumas pessoas chegam com histórias longas. Diferentes diagnósticos ao longo dos anos. Diferentes medicações. Diferentes tratamentos que produziram resultados menores do que o esperado. Reconhecer a neurodivergência como parte do funcionamento pode mudar a compreensão de tudo que veio antes — e abrir outros caminhos.

Isso não invalida os diagnósticos anteriores. Propõe que, em alguns casos, uma dimensão importante do funcionamento permaneceu sem reconhecimento por muito tempo.

Sobre o diagnóstico

Diagnóstico não é classificação

Existe uma distinção que orienta esse trabalho: a CID é um sistema de classificação. O diagnóstico é aquilo que o profissional constrói para compreender como aquela pessoa funciona — dentro das classificações existentes, ou além delas.

Os critérios diagnósticos são importantes e continuam sendo referência. Porém a maneira como cada pessoa vivencia e manifesta suas características é profundamente singular. O que o diagnóstico deveria fazer é iluminar essa singularidade, não apagá-la dentro de uma categoria.

Um dos maiores obstáculos no reconhecimento tardio do autismo são os estereótipos. Por muito tempo, a imagem social do autismo foi construída a partir de personagens muito específicos — do Raymond Babbitt de Rain Man a Sheldon Cooper. Quando uma pessoa não se encaixa nessa imagem, o autismo pode ser descartado antes mesmo de ser investigado.

Na prática clínica, isso se traduz em adultas e adultos que chegam após anos sendo avaliados sem que ninguém tenha considerado a possibilidade de neurodivergência — porque tinham linguagem desenvolvida, aparência social suficiente, ou simplesmente porque não pareciam o que o profissional esperava encontrar.

A avaliação aqui parte de outro ponto.

Carta do Mar — Para quem atravessa

Sou o Mar, e falo agora com quem está no meio do caminho. Nem mais no cais, nem ainda na outra margem.