
A Enseada
O som do silêncio
Uma caminhada pelo Campus durante o recesso — e a descoberta de que muitas 'preferências' de uma vida inteira por cidades pequenas e silenciosas fazem mais sentido à luz de um diagnóstico tardio.
Hoje, enquanto eu voltava para casa depois do trabalho, caminhando pelo campus, tive um pensamento que me fez sorrir: o Campus é tão bom quando estamos em recesso! Tão quieto, tão aconchegante!
E esse pensamento me fez sorrir porque o Campus não foi feito para estar vazio, ao contrário! No entanto, o meu funcionamento não combina com uma cidade universitária onde convivem cerca de 50 mil pessoas.
Lembrei de todas as vezes em que decidi trabalhar em cidadezinhas do interior: 6 mil habitantes, 14 mil habitantes...
E foi aí que algo me fez sorrir mais ainda: porque o diagnóstico, mesmo tardio, faz algumas coisas começarem a fazer sentido.
Antes eu dizia: gosto de morar no interior, gosto do ritmo e do espaço de uma cidade pequena, sem trânsito, sem o aglomerado de pessoas, os gritos incessantes das crianças, buzinas, músicas, e sei mais lá o quê.
Ah, então agora tudo é por causa do autismo! Não, não é bem assim. No entanto, muitas coisas que antes pareciam preferências agora fazem mais sentido. E esse sentido me basta.
Eu adoraria seguir morando na cidade onde nasci, olhar o mar todos os dias, me encantar a cada vez que olho a ponte Hercílio Luz — eu realmente gosto daqui. E gosto do Campus. Só que o Campus de hoje não é o mesmo de 41 anos atrás, quando cheguei ali pela primeira vez e adorava abrir um livro embaixo de alguma árvore qualquer.
Hoje isso só é possível no recesso — e olhe lá, porque em alguns lugares já não é seguro ficar.
Mas hoje foi. Hoje eu pude caminhar pelo Campus e ouvir os sons que o cotidiano apressado não permite perceber: o som do vento arrastando as folhas, os passarinhos aqui e ali, e até mesmo o som do silêncio.
Sim, há um som que vem do silêncio.
Um som indescritível que nos faz entender que o silêncio não é ausência — ao contrário, é presença.
É ouvir os próprios passos, ouvir o vento, sentir a brisa, estar no corpo como quem habita, e não como quem corre atento a tudo e a todos.
Semana que vem termina o recesso, iniciamos o segundo semestre, e isso é bom também. Penso eu que poderia existir um pouco mais de silêncio nos corredores, um pouco mais de passos lentos e seguros, como os de hoje.
Scheilla Soares · Escutas e Travessias. Para citar, mencione a autora e o projeto.
