A Enseada

Luz, música, ação

Garrafas ao Mar

Um dia de chuva, depois uma manhã de sol — e a descoberta de que o corpo pode mudar de estado, com luz, música e movimento, antes que a mente entenda por quê.

Ontem choveu o dia inteiro.

Não aconteceu nada especialmente ruim, mas o dia se arrastou um pouco. Tudo parecia exigir um esforço a mais, e eu também não fiz muita coisa para mudar isso. Fiquei por ali, acompanhando aquela espécie de lentidão cinzenta que às vezes toma conta dos dias de chuva.

Hoje acordei e o sol já batia na janela do meu quarto.

E senti alguma coisa diferente.

Pequena. Nada que merecesse o nome de felicidade ou disposição. Talvez apenas uma vontade um pouco maior de estar acordada.

Fiquei pensando nisso.

Eu sempre brinco que sou movida a energia solar.

O inverno nunca combinou muito comigo. Tenho mais dificuldade de sair de casa, de começar as coisas, de me movimentar. Os dias frios e cinzentos parecem me pedir recolhimento — às vezes mais do que eu gostaria.

Talvez seja simplesmente porque sou uma menina do mar.

Sol, mar, verão, férias.

Quando penso nas minhas boas lembranças de infância, há muita luz nelas. Há calor. Há dias compridos. Há aquela sensação de que o tempo não estava acabando e de que alguma coisa boa ainda poderia acontecer antes do anoitecer.

E comecei a me perguntar:

Quanto dessas coisas o corpo se lembra mesmo quando não estamos conscientemente lembrando?

Não sei exatamente o que aconteceu comigo esta manhã.

Talvez tenha sido a luz.

Talvez tenha sido a memória.

Provavelmente foi um pouco de muitas coisas, mas achei interessante perceber que meu estado havia mudado antes que eu tivesse feito qualquer esforço consciente para mudá-lo.

Eu não pensei positivamente.

Não fiz uma lista de gratidão.

Não reorganizei minhas metas.

O sol simplesmente entrou pela janela.

E meu corpo respondeu.

Foi daí que me lembrei da música.

Há dias em que coloco uma música e alguma coisa acontece.

Não necessariamente fico feliz, mas meu pé começa a acompanhar o ritmo. Às vezes levanto. Arrumo alguma coisa. Vou fazer café. Abro uma janela.

E novamente existe algo interessante nisso:

O corpo começou antes de mim.

Talvez estejamos acostumados demais a imaginar que precisamos mudar nossos pensamentos para então mudar a maneira como nos sentimos e, finalmente, conseguir agir.

Pensar → sentir → agir, mas será que essa é sempre a ordem?

E se às vezes pudermos entrar pela outra porta?

Corpo → estado → pensamento.

Colocar uma música.

Ir até o sol.

Caminhar.

Respirar mais devagar.

Tomar um banho.

Sentir o vento.

Mexer as mãos na terra.

Não como receita. Muito menos como aquela lista irritante de coisas que deveríamos fazer para sermos pessoas mais saudáveis, produtivas e equilibradas, mas como experiência.

O que acontece comigo quando faço isso?

Enquanto pensava no meu amor pelo verão, outra pergunta apareceu.

Talvez o sol que entra pela minha janela hoje não seja apenas o sol de hoje.

Talvez haja nele alguma coisa de todos os outros sóis.

O cérebro aprende por associação. Experiências repetidas vão ligando sensações, lugares, sons, cheiros e estados emocionais.

Uma música pode nos transportar para uma época.

Um cheiro pode trazer de volta uma casa inteira.

Por que a luz não poderia carregar alguma coisa também?

Para mim, verão não significa apenas temperatura.

Significa mar.

Férias.

Infância.

Liberdade.

Dias compridos.

Talvez parte do meu corpo tenha aprendido, ao longo de muitos anos:

Luz, calor, mar — coisas boas acontecem por aqui.

Não preciso transformar isso numa explicação neurocientífica perfeita. Aliás, prefiro não fazer isso. Gosto mais da pergunta.

Quando estamos desanimados, frequentemente começamos pela interpretação.

Por que estou assim? O que há de errado comigo? Será que estou deprimida? Por que não tenho vontade de fazer nada?

Algumas vezes essas perguntas são necessárias, mas talvez possamos acrescentar outras:

Como está meu corpo hoje? Como dormi? Vi a luz do dia? Estou há horas sem me movimentar? Há alguma música que meu corpo gostaria de ouvir? O que aconteceria se eu saísse por alguns minutos?

Não para provar que estamos bem, nem para mandar a tristeza embora — ela também tem direito de ficar quando precisa —, mas para descobrir se aquele estado é inteiramente imóvel ou se existe alguma pequena porta de entrada pelo corpo.

Talvez seja isso que eu esteja começando a observar em mim.

Há estados que não consigo modificar dizendo a mim mesma para ficar melhor, mas às vezes uma janela ajuda.

Uma música ajuda.

Um pouco de movimento ajuda.

E talvez uma parte importante do trabalho terapêutico seja justamente descobrir quais são as coisas que ajudam cada corpo a mudar de estado.

As minhas talvez comecem por aqui:

Luz, música, ação.

E, de preferência, um pouco de mar.

Scheilla Soares · Escutas e Travessias. Para citar, mencione a autora e o projeto.